Depois de três livros bem-sucedidos, tanto em público quanto em crítica, Matheus Arcaro publica seus poemas. Obra será lançada no dia 19 de setembro em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

 

 

 

Um clitóris encostado na eternidade, de Matheus Arcaro, será lançado no dia 19 de setembro na Casa Vil’Arte, em Ribeirão Preto (SP). O autor, que já tem publicados dois livros de contos Violeta velha e outras flores e Amortalha e um romance O lado imóvel do tempo experimenta, pela primeira vez, a poesia

 

Apesar de mergulhar no novo gênero literário, Matheus Arcaro sempre afirmou que não se considera poeta, mas prosador. “De qualquer modo, são anos de lapidação dos poemas, alguns que já existiam muito antes do lançamento do meu primeiro livro, em 2014”, comenta.

 

Ao contrário do que muitos leitores imaginam, o escritor considera a criação poética bem mais difícil que a prosa. “Na poesia, geralmente não há um enredo que sustente o texto. A poesia é a linguagem em estado febril e, talvez por isso, ela seja a mais útil das artes. Útil não no sentido usual, já que a poesia vale por si, mas no sentido de excitar no humano seus estados interiores mais profundos”, complementa Arcaro.

 

Como aconteceu com outros três livros do autor, este também é uma produção da Patuá, editora paulistana que vem recebendo vários prêmios em âmbito nacional.

 

A obra traz 48 poemas, divididos em sete seções temáticas, cujos títulos são, no mínimo, intrigantes: “no confessionário ou no umbigo de deus” e “na ágora de agora ou na falta dela” são dois exemplos. Cada seção tem a ilustração do artista Ubirajara Junior.

 

Com referência ao título do livro, uma pergunta que Arcaro tem recebido com frequência: por que “um clitóris encostado na eternidade”? A epígrafe, retirada de uma obra inventada pelo autor, pode ser um indício. “É na arte, em especial na poesia, que sagrado e profano se costuram”.

 

O autor explica que o título, na verdade, era um poema de um único verso do livro: “fazer poesia é encostar um clitóris na eternidade”. Para ele, é na poesia que se goza o encontro entre efêmero e duradouro, entre ser e devir, entre uno e múltiplo. A poesia é a ponte entre o orgasmo sensível e o intelectual. É a objetivação do que é subjetivo, como escreve Manoel Herzog na orelha da obra: “o clitóris encostado na eternidade é o próprio poeta, antena de sensibilidade que não foge às experiências do mundo tal e qual se apresentam. Frente à eternidade, o intelectual, o cientista, o observador, todos se concentram na figura única do poeta, ao fim e ao cabo”

 

Quem é o autor

Matheus Arcaro é mestrando em Filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance O lado imóvel do tempo (Ed. Patuá, 2016) e dos livros de contos Violeta velha e outras flores (Ed. Patuá, 2014) e Amortalha (Ed. Patuá, 2017). Também colabora com artigos para vários portais e revistas.

 

 

 

Serviço

Lançamento do livro “um clitóris encostado na eternidade”, poesia.
Autor: Matheus Arcaro
Data: 19 de setembro
Local: Casa Vil’Arte (Rua Floriano Peixoto, 1396. Ribeirão Preto – SP)
Horário: 19h

 

Trecho da orelha, escrita por Manoel Herzog

Para um homem que já se lançou com proficiência notável à pintura, à filosofia, ao magistério, à literatura em prosa, seja no romance ou nos contos muito bem urdidos, a poesia, máximo que a expressão humana pode alcançar, era o estágio que inevitavelmente coroaria um trabalho que vem, não diria num crescendo, pois é como se, atemporal, nascesse maduro, mas numa constância, e muda de forma sem que se lhe altere a essência.

Nos capítulos deste Clitóris úmido e lancinante, que reverbera a dor do mundo (a tal “dor e delícia de ser o que se é” de que nos fala  Caetano), pode o leitor navegar por aspectos da psicologia, da poesia, da metalinguagem, e também da condição política, pois Matheus é mais que tudo alma sensível às mazelas que derroem um país assolado pelo fascismo e pela ignorância. Bálsamo contra a insensibilidade e a rudeza que grassam nos dias de hoje, a leitura da obra de Matheus Arcaro é necessária pra se continuar vivendo.

 

Um poema do livro:

 

Não ferem os amantes

as frestas

entre as frases.

 

Na língua em repouso

o desejo se dilata

até tocar o indizível.

 

A ausência das palavras

é palco dos olhos,

dos hálitos,

dos hábitos despidos.

 

Peles, pelos e peitos

entrelaçados,

bêbados de presente.

 

Um espetáculo

em que as proposições

são espectadoras

e aplaudem atônitas

a eloquência dos corpos.