21 mai/16

Como nossos pais

postado por Diogo Branco

"Retrocesso".
Foi essa a palavra que me veio à mente neste mês, quando resolvi me reaproximar dos noticiários televisivos e das redes sociais. "Com passos de formiga e sem vontade", como diria Lulu Santos, a nossa sociedade evolui, sim. Vai atrás de seus direitos, consegue muita coisa, sim. Mas sempre dá um passo para trás quando resolve dar dois para frente. E o noticiário bombou. Mas destaco dois pontos de retrocesso que me fazem descrer da construção de um futuro cultural, rico e igualitário. Primeiro:  o Ministério da Cultura em pauta e, mais uma vez, incompreendido por aqueles que não se dão sequer o trabalho de pesquisar sobre sua real função e importância. Segundo: homossexuais descritos em alto e bom tom como "anormais" por apresentadora de televisão de uma das maiores redes nacionais - em programa ao vivo - enquanto que, na mesma semana, uma pastora com milhares de fiéis posta em seu Instagram uma postagem com hashtags como "#CasamentoÉHomemEMulher", "Heterossexualismo", etc.

Sobre o Ministério da Cultura, não há muito o que se dizer. Embora o atual governo tenha voltado atrás e mudado sua decisão, foi um péssimo cartão de visitas logo na primeira semana de governo. A impressão que a classe artística teve não foi das melhores. A Lei Rouanet foi vista por muitos como algo ruim, como um dos motivos da crise do país. O Ministério existe há 30 anos, e a Lei não foi o estopim da crise. É claro que ela deve ser melhorada, e mais bem entendida por boa parte da população. E é claro que a decisão de extinguir o Ministério não duraria muito tempo, especialmente após as milhares críticas negativas de artistas influentes que se reuniram para, juntos, redigirem uma carta contra a decisão do atual governo. Um país sem cultura é um país sem identidade, e extinguir um Ministério de suma importância é uma decisão equivocada - especialmente num país reconhecido internacionalmente pelo seu valor cultural. Volto a relatar o que escrevi acima: a sociedade caminha a passos lentos, e a evolução de um país pode estar nas mãos de mentes retógradas. Depois de muita luta e pouco avanço, seria incabível retirar o pouco que se tem.

Sobre a homofobia, que também foi bastante destacada no noticiário durante este mês, só poderia deixar aqui minha indignação. É claro que existem pessoas preconceituosas e racistas. Isso é inegável. Os gays sabem disso e até certo ponto, aceitam essa triste realidade. Agora, dizer em rede nacional que "não é normal ver homem com homem" parece coisa do século passado. A sociedade evoluiu, e só não vê quem não quer ou quem se recusa a acreditar. Para quem não está entendendo, explico: a apresentadora Patrícia Abravanel disse durante o programa "Silvio Santos" que não acha normal ver homem com homem, mulher com mulher, e por aí vai. Uma comunicadora, uma pessoa pública em rede aberta de televisão não deveria, perante à sua responsabilidade social, tecer comentários sobre o que acha "normal" sobre a comunidade gay. Ela pode até se sentir incomodada com a alegria alheia, com a liberdade que os gays estão conseguindo a curtos passos, ela pode até ter pensamentos de que não gostaria que isso acontecesse, e sonhar com uma sociedade "heterossexual". Mas não pode dizer que não acha isso normal, de jeito nenhum. Ela pode não estar acostumada a conviver com gays, tudo bem. Mas não pode considerar anormal algo que não conhece ou não vivencia. Principalmente, volto a dizer, num programa do SBT, ao vivo, com grande audiência. A televisão ainda serve como educadora e formadora de opinião. É completamente errado sair dizendo ao léo tudo o que se passa na sua cabeça como se isso não fosse prejudicar o próximo, ferir ou desrespeitar. "Considerar justa toda forma de amor" parece estar longe do pensamento de alguns. Patrícia foi bastante infeliz na colocação dela. A opinião dela poderia ser dada na casa dela, se ela quisesse, ou num bar, na fila do mercado - e essa é a verdade dela. Mas faltou a responsabilidade ao perceber que ela não está falando para um grupo de amigas, mas sim para um Brasil inteiro que tem acesso ao programa. E é uma pena pensar que uma pessoa com esse tipo de pensamento possa vir a ter o comando do SBT no futuro.



Paralelo à isso, a pastora Ana Paula Valadão - que, até então, eu nunca tinha escutado falar, para meu deleite e satisfação - resolveu criticar uma campanha da C&A, intitulada "Misture, Ouse e Divirta-se". Segundo a pastora, que inclusive adora esbanjar luxo e vaidade em suas redes sociais, o casamento existe apenas entre homens e mulheres, o sexo seguro é apenas coisa de heterosexual, e homem veste como homem, mulher veste como mulher. Nunca li tanto absurdo junto, numa única postagem. A princípio, eu gostaria de entender o que uma ROUPA pode influenciar na vida das pessoas. Se uma mulher resolver usar roupa masculina, por qualquer motivo que seja, ela não deveria ser respeitada? Ela não estaria de acordo com as "leis" divinas? E olha, aqui não estou falando da sexualidade, estou falando apenas da roupa mesmo. A pastora deveria ter se esclarecido melhor. Ou ter ficado em silêncio, na melhor das hipóteses. Ora, então, segundo o raciocínio da Ana Paula, um cidadão pode até fazer o bem,propagar o bem, respeitar o próximo e não praticar nenhum tipo de maldade na vida, mas basta usar um acessório do "sexo oposto", que todo o seu esforço e sacrifício por um cantinho no paraíso terá sido em vão. Seria cômico se não fosse tão trágico um tipo de pensamento assim. Isso sem falar nas hashtags utilizadas na postagem. #FamíliaÉHomemEMulher . Ah, se ela soubesse quantas "famílias" de homem e mulher abandonam seus filhos para que casais gays os adotem com todo amor e carinho para, sim, constituir uma família de verdade.
Abaixo, coloco a imagem da postagem da pastora, que - é claro -só veste roupas femininas, apesar de serem roupas de marcas famosas compradas em alguma das muitas viagens que costuma fazer ao exterior.




Tudo bem, há quem diga que religião não se discute, nem política.
Discordo, apesar de preferir não entrar nesse tipo de discussão.

Às vezes fica difícil entender o pensamento alheio.

Num mês tão tomado por pensamentos retógrados e preconceituosos, vale lembrar um dos versos mais famosos da música popular brasileira.
Um verso tão antigo, mas, infelizmente, tão atual.

"Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos...Ainda somos os mesmo, e vivemos como nossos pais".





-Todas as opiniões relatadas no texto acima são do autor do texto, não representando, necessariamente, a opinião dos demais integrantes do site.


Diogo Branco
Diretor-geral e colunista do Farofa Cultural